Ele sempre passou muitas horas fora de casa, trabalhando. Ele, um dia, quando eu ainda era uma menina muito pequena, chegou em casa com um carrinho amarelo de polícia, que tocava uma pequena sirene, e junto dele um saco enorme de polvilho doce. Eu, que desde sempre gostava mais das brincadeiras de meninos, amei o tal carro. Brinquei muito com ele, até largá-lo em um armário, quando a adolescência tinha chegado e o meu interesse pelos meninos era outro, muito além das brincadeiras.
Logo, ele que já me era distante, ficou mais ainda. Ele transformou-se naquele vilão, que à tudo dizia "NÃO". Ele gritou e eu chorei. Não que eu tivesse motivos de fato, pois ele ameaçou mas nunca se aproximou de mim. O que me deixava triste era o fato de eu ver aqueles seres heróis nos filmes, que iam correndo até o aeroporto para resgatar o filho que a "mãe má" levava para longe. O herói dizia: "Eu te amo, filho. Não fique longe de mim nunca mais, ok?" e o filho todo feliz, pulava em seu pescoço, seguro.
Hoje, o irônico foi que meus pensamentos e suposições se concretizaram. Ele disse: "Não preciso de você." e foi como se toda uma certeza sobre ser inútil e egoísta a vida inteira tivesse desabado sobre mim. Além da minha inutilidade como filha, ele pareceu-me "inútil" ao seu próprio ver. Com palavrões e esbravejos, ele repetia aquela frase, culpando-se também.
Nunca, mas nunca vou entendê-lo e talvez, no fundo, eu nem queira. Ele vai ser aquele ser ao qual deverei ser grata mas que nunca vai me dar um abraço gostoso e dizer que me ama, como qualquer clichê cinematográfico e como eu sempre quis ouvir.
Vou levar daquele jeito, como os filmes atuais tentam contar: fingir que a dor provém de um tapa na cara ou de um arranhão. Mas quem vive assim, fingindo, escondendo e imaginando, sabe que a dor pode surgir, criar raízes e nunca mais sumir com apenas um olhar.